A acusação contra Moro é de ter orientado o MPF para que investigasse com denodo

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Sobre as conversas do Moro com o Dallagnol:

1 – Não há crime ou falta disciplinar nos diálogos. Não há conluio ou indício de ação coordenada. Pelo contrário: Dallagnol pede urgência para que Moro analise um pedido de prisão preventiva de Alexandrino Alencar, que acabara de ser libertado pelo STF. Moro diz que não consegue analisar naquele dia. Em outro trecho, Moro diz que seria melhor se duas etapas da Lava Jato tivessem a ordem invertida. Dallagnol responde que a logística não permite e mantém a ordem das operações como o planejado. Não há relação de camaradagem nem concessões mútuas nas conversas. Não há pedidos impróprios e nada que não seja ou não soe republicano. Mesmo quando surge a pista de que uma fonte pode ter informações sobre imóveis do filho do Lula, a dupla procura o que tem que ser feito naquelas circunstâncias: formalizar o depoimento.

2 – Em tese, integrantes do Ministério Público e do Judiciário não deveriam trocar impressões sobre o curso de processos em que atuam conjuntamente. Em um trecho, porém, Moro reclama que o MP recorreu da condenação de réus colaboradores. Em outro, diz que uma das integrantes da Lava Jato é fraca na inquirição e precisa de treinamento. Nesses momentos ele cruza o limite da atuação do juiz para agir como coach do MP. Não deveria, pelo bem do princípio da separação entre os poderes.

3 – Mas se os WhatsApp e Telegrams de todos os advogados de defesa dos réus da Lava Jato fossem hackeados e suas conversas expostas, veríamos coisas mil vezes piores. No último dia antes do recesso do judiciário, no ano passado, por exemplo, o ministro do STF Marco Aurélio Mello decidiu mandar soltar todos os presos em segunda instância. A defesa do Lula imediatamente pediu a liberdade do cliente, mas o Spotniks revelou que os metadados da petição indicaram que ela tinha começado a ser redigida antes da publicação do HC de Marco Aurelio Mello no site do STF. Como é que a defesa do Lula ficou sabendo antecipadamente daquela decisão?

4 – E Gilmar Mendes? Imaginem o que um hacker encontraria no WhatsApp dele? E no do Lewandowski? E no do Dias Toffoli?

5 – Por isso é que não tem pé nem cabeça a ideia de anular os julgamentos da Lava Jato com base em conversas obtidas ilegalmente. Talvez esse episódio sirva para dar mais uns cinco minutos de holofote para o Cristiano Zanin que, coitado, andava tão sumido. Mas não esperem que nenhum ministro de tribunal superior valide algo que possa se voltar contra toda a corporação.

6 – O Intercept fez o papel que qualquer veículo jornalístico faria ao publicar as conversas, que são de interesse público. Tudo indica, no entanto, que elas sejam produto de um crime (só não seriam se tivessem sido repassadas por um dos envolvidos nos diálogos). E é um crime grave, que aparentemente alcançou outros magistrados, como o desembargador Abel Gomes, revisor da Lava Jato no Rio de Janeiro, e outras figuras públicas. A Polícia Federal tem que investigar esse crime e os autores, se identificados, têm de ser processados e presos.

7 – Politicamente, o resultado disso tudo é um jogo de soma zero. A turma do Lula Livre ganha alguns argumentos a mais para choro e esperneio. A Lava Jato comprova a tese de que enfrenta uma quadrilha sem escrúpulos, capaz até de hackear promotores, juízes e ministros.

8 – Só não é soma zero para o Bolsonaro, que se beneficia de qualquer tentativa do PT de botar a cabeça para fora da toca onde esteve enfiado nos últimos meses. Muito melhor para ele que o noticiário político seja ocupado por uma tentativa do PT de atacar a Lava Jato do que com o mimimi de governo versus Centrão ou Olavo de Carvalho versus militares. A retomada do clima de campanha é tudo o que Bolsonaro poderia querer a essa altura. Só não é o melhor para o país, mas quem está ligando pra isso?

(Texto de Erick Bretas. Jornalista)

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