A DIREITA SOB FOGO CERRADO: Redes sociais e as restrições à divulgação do pensamento conservador

Redes sociais e plataformas de serviços digitais impõem restrições à divulgação do pensamento conservador, valorizam o conteúdo progressista e comprometem a liberdade de expressão.

Código de Defesa do Consumidor completa 30 anos neste setembro. No inciso 23 do artigo 13 está determinado que uma empresa não pode “recusar a venda de produto ou a prestação de serviços, publicamente ofertados, diretamente a quem se dispõe a adquiri-los mediante pronto pagamento”. Apesar dessa obrigação, o PayPal impede, desde o início de agosto, que o professor e filósofo Olavo de Carvalho, considerado uma das principais vozes da extrema direita no país, venda seus cursos e livros pela plataforma de pagamento on-line.

A exclusão da conta mantida por Carvalho aconteceu depois que o PayPal foi alvo de uma campanha de boicote promovida pelo movimento denominado Sleeping Giants Brasil. No Twitter, o grupo, que afirma promover a “luta coletiva de cidadãos contra o financiamento do discurso de ódio e das fake news”, tem pouco mais de 400 mil seguidores e conta com a simpatia de figuras como o youtuber Felipe Neto e o apresentador Luciano Huck.

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O Sleeping Giants Brasil não se contentou com a decisão do PayPal e intensificou o discurso de ódio contra Carvalho. Agora, a luta é para que empresas suspendam a veiculação de anúncios nos vídeos do filósofo no YouTube. “Olá @amazonBR, tudo bem? Poder comprar um pouquinho de tudo no seu app é ótimo, mas não é legal encontrar seus anúncios em um canal no @YoutubeBrasil que incentiva o ódio e a desinformação. Será que a Alexa pode nos ajudar nisso? Pfv BLOQUEIEM.”

Olá @magazineluiza, tudo bem? Sabemos que a Lu além de eficiente é comprometida com fazer o bem, mas viemos alertar que infelizmente encontramos seu anúncio em um canal no @YouTubeBrasil que promove o ódio e desinformação. Pfv ajuda a gente Lu, BLOQUEIEM✊🏽 #SleepingGiantsBrasil pic.twitter.com/DCUDfmpT9J

— Sleeping Giants Brasil (@slpng_giants_pt) September 23, 2020

Todos os dias, de hora em hora, mensagens semelhantes são direcionadas, entre outras, às empresas Jeep, PagSeguro, Mercado Livre, PicPay, Pedigree, Vivo, LG, Samsung, C&A, Johnson & Johnson, Spotify, Riachuelo, Magazine Luiza. As que aderem ao boicote são louvadas na página do grupo.

Na semana passada mais 15 empresas interromperam a veiculação de seus anúncios no canal de Olavo de Carvalho no @YouTubeBrasil.

Parabenizamos as empresas que assumiram sua responsabilidade social no combate a monetização de ódio e Fake News✊🏽 #SleepingGiantsBrasil pic.twitter.com/DAWqChPXdB

— Sleeping Giants Brasil (@slpng_giants_pt) September 21, 2020

Promover campanhas de boicote por meio das redes sociais não é ilegal, explica a juíza Ludmila Lins Grilo, do Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJ-MG). Contudo, a história é outra quando o alvo do ataque é acusado de cometer crimes, como aconteceu com Carvalho. “Causaram dano à imagem do professor”, disse ela em entrevista ao programa Os Pingos nos Is, da rádio Jovem Pan, que conta com a participação de Augusto Nunes e Guilherme Fiuza, colunistas da Revista Oeste.

Antes de Carvalho, o alvo principal fora o Jornal da Cidade Online. Editado pelo jornalista José Tolentino, o site viu marcas de grande porte, como a Dell, impedir que suas mídias programáticas (um formato de publicidade digital) fossem veiculadas na página do jornal na internet. A justificativa é que tanto o filósofo quanto o Jornal da Cidade espalham fake news. Na vida real, o Sleeping Giants parece mais preocupado em colocar o pensamento conservador na berlinda.

Ao lhe perguntarem por que sites de esquerda não são visados, o fundador do Sleeping Giants Brasil, sem revelar a identidade, respondeu, numa entrevista concedida ao portal UOL em 23 de maio, que “a verdade não tinha lado”. “A mentira está em todo lugar, e estamos aqui para combatê-la mesmo que isso doa”, disse. Em seguida, ponderou: “Mas a fake news é muito mais forte e propagada pela extrema direita”.

As ofensivas direcionadas a representantes de uma linha editorial mais conservadora fizeram com que o Sleeping Giants Brasil ganhasse a imediata simpatia de boa parte da imprensa tradicional. Na entrevista de 23 de maio, por exemplo, o UOL afirmou que o movimento — inaugurado havia apenas quatro dias — “conseguiu atingir em cheio um dos principais sites de fake news” do país. Na mesma data, a versão nacional do jornal espanhol El País garantiu que o grupo “causou um terremoto nas redes sociais ao alertar companhias sobre propagandas em canais pouco confiáveis”.

No mundo
O Sleeping Giants Brasil é inspirado num movimento homônimo criado nos Estados Unidos em novembro de 2016. Com cerca de 300 mil seguidores no Twitter, o grupo se define como o instrumento de “uma campanha para tornar o preconceito e o sexismo menos lucrativos”. O propósito, entretanto, é idêntico ao da versão brasileira: sufocar financeiramente sites considerados de direita. Ao contrário dos brasileiros, os idealizadores da versão norte-americana, Matt Rivitz e Nandini Jammi, não se escondem no anonimato.

Entre outras campanhas, o Sleeping Giants (original) organizou um boicote ao site de notícias Breitbart e pressionou o PayPal a excluir de suas plataformas os pagamentos a ativistas e grupos que considera ultradireitistas. Também intimou o Bank of America a parar de fazer negócios com prisões particulares.

Ironicamente, a dupla de fundadores se separou depois de uma briga de egos que incluiu acusações públicas de preconceito e sexismo. “Como meu cofundador homem branco me tirou do movimento que construímos juntos”, escreveu Nandini, no subtítulo de seu texto de despedida publicado no Medium. “Quero mostrar como uma mulher negra quase desapareceu do movimento que ela construiu, e o que acontece quando ela se recusa a seguir as regras que seu ‘líder’ masculino branco estabelece.”

Facebook
A ativista deixou a organização no momento em que o grupo começava a pedir o boicote de anunciantes contra o Facebook. Na mesma época, despontou nas redes o movimento #StopHateforProfit (“Pare de odiar por lucro”, em tradução livre), que convocava empresas a remover anúncios da rede social enquanto não fosse bloqueado o que o grupo chamava de “conteúdo de ódio”. Starbucks, Coca-Cola e Unilever foram algumas das marcas que suspenderam anúncios pagos da plataforma.

Coincidentemente ou não, o Facebook passou a limitar a exposição de sites conservadores. A estratégia foi ajustar o algoritmo da plataforma para dar mais destaque a matérias da grande mídia — por serem, presumivelmente, “isentas” — e colocar em posições menos relevantes sites independentes, categoria na qual se enquadra grande parte da imprensa mais à direita do mainstream.

“Vozes conservadoras do Google criticaram um ambiente em que se sentem ‘silenciadas’”

“Essas empresas mudaram insidiosamente de plataformas neutras para moderadoras de conteúdo”, escreveu Rob Sutton, na revista britânica Spiked. “Não é segredo que o Vale do Silício é fortemente inclinado para a esquerda. Jack Dorsey, cofundador e CEO do Twitter, disse que a rede ‘tem muito mais funcionários de esquerda do que de direita’. Vozes conservadoras do Google criticaram um ambiente em que se sentem ‘silenciadas’. O conselho de supervisão do Facebook está repleto de esquerdistas e teve de fechar um grupo interno de simpatizantes de Trump devido aos atritos que expôs dentro da empresa.”

A propensão a silenciar vozes conservadoras é tendência também nas “agências de checagem”, que proliferaram nos últimos anos com a pretensão de identificar notícias falsas. Curiosamente, sete em cada dez “fake news” apontadas tratam de desmentir assuntos que destoam do que se convencionou chamar de “pensamento progressista”.

Recentemente, três reportagens de Oeste foram alvo de agências de checagem. A primeira mostrava que, diferentemente do que estava sendo divulgado de forma intensiva pela grande imprensa, a Amazônia não estava em chamas. A segunda informava que a OMS, depois de passar meses recomendando o lockdown para tentar conter a pandemia de coronavírus, havia recuado e começara a defender a retomada da economia. Na terceira — “Pandemia em declínio: Brasil zerou excesso de mortes em junho” —, o projeto Comprova chegou a entrar em contato com uma das fontes citadas na matéria para, segundo a agência, “entender melhor os números e a metodologia por trás deles”. As três reportagens estão corretas. Oeste reafirma o que publicou.

Esquerda e direita
Essas campanhas de boicote também fizeram com que a Hotmart, plataforma que comercializa cursos on-line, interrompesse a venda de produtos no formato “portal de notícias de cunho político”. “Entendemos que esses produtos tendem a gerar alto volume de contatos e denúncias em nossos canais de atendimento, demandando grande esforço da equipe em algo que não é o foco atual da empresa”, explicou a Hotmart. Entre eles figuram o site Terça Livre e a produtora de documentários Brasil Paralelo, ambos considerados bolsonaristas.

Em artigo publicado na Spiked, Fraser Myers, editor da revista britânica, ponderou que um dos riscos de tentar calar vozes à direita é que essa censura pode — e provavelmente vai — atingir também a esquerda. Ele lembra que o Facebook, ao mesmo tempo em que removeu 790 grupos, cem páginas e 1,5 mil anúncios vinculados à teoria da conspiração de direita QAnon, fez um expurgo dos chamados Antifas e de outras organizações de extrema esquerda: foram 980 grupos, 520 páginas e 160 anúncios, além de 1,4 mil hashtags no Instagram.

“Uma vez que se admite o argumento de que certas opiniões estão além do limite e deveriam ser proibidas — seja pelo Estado, seja pela mídia social —, perde-se a capacidade de defender a própria liberdade de expressão”, observa Myers. “Na prática, isso significa: defenda a liberdade de expressão ou você será o próximo.”

Para Rob Sutton, “a única solução moralmente coerente, politicamente aceitável e praticamente alcançável” é que as plataformas adotem a liberdade de expressão, por mais difícil que seja, observou. Sem dúvida é o melhor caminho. Como disse a escritora britânica Evelyn Beatrice Hall (1868-1956), numa frase erroneamente atribuída a Voltaire, “posso não concordar com nenhuma das palavras que você disser, mas defenderei até a morte o direito de você dizê-las”.

Revista Oeste

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