Alcolumbre combinou pagar salário para ex-funcionária do TJ-AP sem que ela precisasse trabalhar

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Em 2013, o ex-presidente do Senado Federal, Davi Alcolumbre, combinou com uma mulher a melhor forma de lhe pagar um salário com dinheiro público sem que ela precisasse trabalhar.

A revelação foi feita pela revista Veja, que obteve um áudio do senador, da época em que ele exercia seu terceiro mandato como deputado federal pelo Amapá.

O dinheiro seria debitado dos vencimentos que o deputado recebia da Câmara dos Deputados. Ao pagar a mulher, Alcolumbre estava atendendo ao pedido de um amigo, o desembargador do Tribunal de Justiça do Amapá (TJ-­AP), Gilberto Pinheiro, que precisava resolver uma questão pessoal com “relativa urgência”, segundo a Veja.

O problema era o seguinte, de acordo com a revista: Tatielle Pereira de Castro, a mulher que aparece no áudio, era funcionária do TJ-AP.

Tatielle trabalhou durante quase dois anos no tribunal, até que surgiram certos rumores sobre a natureza dessa proximidade com Pinheiro, o que acabou resultando em sua exoneração.

Para não deixar a ex-funcionária desassistida, o desembargador do TJ-AP pediu para Alcolumbre que “patrocinasse” uma espécie de auxílio-desemprego para a mulher.

Foi quando os dois — Alcolumbre e Tatielle — se encontraram para combinar os detalhes de como essa ajuda seria operada. Sem que o senador soubesse, Tatielle gravou a conversa.

Nela, o atual presidente da CCJ do Senado se compromete a pagar uma mesada à ex-funcionária do TJ durante dois anos, incluindo férias e décimo terceiro — mas tudo de maneira informal.

Além disso, atendendo a um outro pedido do amigo desembargador, Alcolumbre se compromete a ajudar a comprar um carro para Tatielle. Desorientada, ela tinha acabado de se separar do marido em razão das maledicências ditas sobre o relacionamento com o desembargador.

De acordo com a Veja, há uma miríade de suspeitas nessa conversa gravada: relações impróprias entre autoridades, troca de favores, nepotismo cruzado e mau uso do dinheiro e das funções públicas.

Ao negociar a mesada com Tatielle, por exemplo, Alcolumbre cita que o valor seria correspondente ao que sua esposa, Liana Gonçalves de Andrade, iria receber como funcionária do mesmo TJ-AP.

A conclusão que se tira do diálogo obtido pela revista é que a contratação da esposa do senador funcionou como uma espécie de compensação financeira. Alcolumbre bancaria Tatielle por dois anos e, em contrapartida, o salário de Liana no tribunal faria o encontro de contas.

“A Liana vai ganhar 8 000 reais, só que vai descontar 27,5%. Aí, quando tu coloca na máquina, dá 6 000 reais, quando tu desconta, é o que tu recebe”, disse o senador, ao explicar para a ex-funcionária a base de cálculo que usou para chegar ao valor exato da mesada.

Liana ocupou um cargo em uma diretoria subordinada ao desembargador Pinheiro no mesmo período em que Tatielle recebeu a mesada.

A melhor maneira de como adquirir e pagar o carro sem chamar a atenção consome boa parte da conversa entre eles. “O desembargador sugeriu que você fizesse o pagamento dos 5 000, porém, tipo tirasse algum carro”, cobrou a ex-funcionária. Os dois não se entendem e ela prossegue. “É o seguinte, deputado, o que eu queria ver com você (…) agora minha vida deu aquele 180, né? Tipo, eu não tenho família aqui, mudança de casa, sem carro, sem nada, né? (…) O desembargador ele me chamou, perguntou como é que eu tava. A preocupação dele com meu casamento. Falou: ‘Olha… eu sei que agora você está só. Eu falei: ‘Olha, desembargador, eu não sei’. Ele falou: ‘Então, vamos fazer o seguinte: você precisa de um carro’. (…) Ele inclusive falou, ele me perguntou quanto que a gente tava acertando”. Tatielle sugere então a Alcolumbre que ele lhe adiantasse os dois “décimos terceiros” e “duas férias” a que teria direito. “É uma boa ideia. (…) Só me dá um tempo pra mim arrumar o dinheiro”, concordou o atual senador.

Atualmente, o desembargador Gilberto Pinheiro é presidente do Tribunal Regional Eleitoral do Amapá.

Recentemente, Gilberto Pinheiro deu um voto decisivo a favor de uma ação movida pelo senador contra a rejeição das contas do diretório estadual do DEM.

Já Tatielle montou escritório em São Paulo em 2019, no mesmo ano em que Davi Alcolumbre assumiu a presidência do Congresso. Para VEJA, ela disse que não se recorda de ter conversado com o senador e afirma que não recebeu dinheiro algum.

“O Amapá é pequeno, é natural que a gente se encontre com várias pessoas”, desconversou.

Na gravação, Tatielle chegou a oferecer ao então deputado usar uma repartição pública como base de apoio político à campanha dele ao Senado.

Por meio de sua assessoria, Davi Alcolumbre informou que desconhece o assunto. “Nunca houve nenhuma relação dessa pessoa, Tatielle Pereira de Castro, com o senador”, diz a nota divulgada pelo gabinete do parlamentar.

gazetabrasil

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